Tinha um sonho, não o tenho mais.
Porque não sei com o que sonhar.
Sonhei e vi que nada sonho.
E se não sei com o que sonhar
É por que não posso sonhar.
Antes, quando tinha um sonho,
Vi que tinha tudo e que ao redor de mim
Tudo existia.
Hoje vi que nem sequer eu posso existir sonhando,
E se existo não posso sonhar a não ser em sonho.
Quem me dera se,
Pelo menos por um segundo
Viver tudo que sonho.
No meu sonho posso ter tudo e ser tudo para todos.
Quando sonhava, não o sonhava para mim.
Destarte, não tinha desejos à minha pessoa,
Eram pensamentos incólumes e vívidos.
Era um outro eu vivendo em mim
Tentando salvar o mundo.
Hoje, se não sonho é porque desejava,
Antes de salvar o mundo, salvar a mim mesmo.
Satisfazer minhas concupiscências,
Meus desejos prementes.
Sonhava uma iminente anistia,
Não de Deus,
Mas do eu primitivo, porque, se sonho,
Sou o mal do mundo, por que
Não sei sonhar!
O dissenso que me embate,
Que me revela um legado de vergonha,
Porque, quando sonho
E acordo
Vi que nada fui e nada fiz.
E ainda assim sonho em continuar sonhando.
Quem me dera fosse redimido de ter sonhado tanto!
Quando vi que Deus me despertou,
Quis fugir. O pejo me dominara.
Não passava de um verme sardônico.
Sonhava e não vivia,
Porque não podia viver sonhando,
Tampouco sonhar em viver.
Deus me fez um sonhador.
Que vergonha! Não posso sonhar?
Ora, porque nasci?
Deus é meu alento.
Fez-me sonhador
E me faz viver acordado.
Não posso dormir para não sonhar.
O estro divino é a minha fúria poética.
Não sou ninguém, porque não posso sonhar em ser ninguém.
Sou o pequeno Morfeu sonhador que não vive porque não sonha
E não dorme para não sonhar.
Deitado em minha cama
A insônia é meu aconchego.
Num lapso de tempo Deus veio,
Vi então que Ele sonha.
Viandei compulsoriamente no sonho d’Ele.
Vi então como é bom sonhar!
Junto com Deus sonhei.
Sonhei e vi o que tudo é,
E que o tudo que é o é factível.
Não mais me senti cansado nem fatigado.
Como é bom sonhar!
Queria não mais acordar.
Outro lapso de tempo e acordei.
Não tinha mais insônia!
Não sou mais desconchavo.
Sonhei e vi que era possível sonhar.
Sonhara a realidade.
Mas sonhar é tão duro!
É feiura onírica,
É noite de fel.
Porque tudo que é real é dor.
Porque a verdade liberta, mas é dolorosa, é padecente.
Foi então que percebi,
Que Deus descera de novo e me perguntou:
Estás com sono? Ou estás com sono?
Respondi: Ora, não seria eu como Morfeu? Faça-me sonhar, nasci para sonhar.
Deus disse: Quem disse? Não estarias sonhando agora?
Respondi: Ao menos faça-me sonhar teus sonhos,
Pois já não agüento mais esses pesadelos.
Vi então que na realidade não sonhava,
Tinha reflexos de um futuro criado
Tinha sim desejos infames de ser e ter.
Nunca havia sonhado.
Preciso sonhar para aprender com o que sonhar.
E quando sonhar, sonharei que não tenho nada,
Porque não tenho nada,
Não tenho vida, não tenho sonhos nem vontades,
Nem virtudes, tampouco coração.
Descubro então que tenho tudo
E na terra não há mais pranto nem crime nem dor.
E as pessoas caminham nas praças e jardins
Alegres e saudáveis,
Libertas e sonhadoras.
Porque Deus sonhou primeiro,
E eu sonhei depois.
Então, acordei.
Dormi e sonhei.