domingo, 27 de março de 2011

terça-feira, 22 de março de 2011

Supérstite

      O que me move é essa sede de ter o que se me dá aos poucos, pois deixa sempre uma ausência que me faz desesperado em busca de mais. A falta de comparência é que me impulsiona na carência que me faz querer mais e mais algo que, pelo seu próprio intento, se abstém de dar-me a si mesmo, porque é movido pela falta dela que conheço a essência do cosmo que me rege e me dá a vida.

quarta-feira, 9 de março de 2011

O Eu de mim mesmo

O mais selvagem de mim mesmo
Não está em meu mais íntimo ser,
A dor que atine o furor a esmo
E me desata até morrer.
Pois bem que me dera saber
A que distância estaria de mim,
Proporia-me a ver e lha debater.
Mas o eu de mim mesmo se extravaga
Mas não vaga para além do além.
O além do desejo impuro que se traga
E me faz um impulso arquem.
O que de mim se espera não se vê
O que de mim se aprende não se contém,
Não se encerra nem se detém.
O eu de mim mesmo, esse pecado
Fazendo em mim residência,
Em meu coração alastrado
E me faz render à reincidência.
Não há refugio de mim lá fora
Nem tenacidade que não me faça errar
Quem me dera se, tão somente agora
Pudesse Deus me perdoar.

sábado, 5 de março de 2011

Devaneio

Tinha um sonho, não o tenho mais.
Porque não sei com o que sonhar.
Sonhei e vi que nada sonho.
E se não sei com o que sonhar
É por que não posso sonhar.

Antes, quando tinha um sonho,
Vi que tinha tudo e que ao redor de mim
Tudo existia.
Hoje vi que nem sequer eu posso existir sonhando,
E se existo não posso sonhar a não ser em sonho.

Quem me dera se,
Pelo menos por um segundo
Viver tudo que sonho.
No meu sonho posso ter tudo e ser tudo para todos.
Quando sonhava, não o sonhava para mim.
Destarte, não tinha desejos à minha pessoa,
Eram pensamentos incólumes e vívidos.
Era um outro eu vivendo em mim
Tentando salvar o mundo.

Hoje, se não sonho é porque desejava,
Antes de salvar o mundo, salvar a mim mesmo.
Satisfazer minhas concupiscências,
Meus desejos prementes.
Sonhava uma iminente anistia,
Não de Deus,
Mas do eu primitivo, porque, se sonho,
Sou o mal do mundo, por que
Não sei sonhar!

O dissenso que me embate,
Que me revela um legado de vergonha,
Porque, quando sonho
E acordo
Vi que nada fui e nada fiz.
E ainda assim sonho em continuar sonhando.

Quem me dera fosse redimido de ter sonhado tanto!

Quando vi que Deus me despertou,
Quis fugir. O pejo me dominara.
Não passava de um verme sardônico.
Sonhava e não vivia,
Porque não podia viver sonhando,
Tampouco sonhar em viver.

Deus me fez um sonhador.
Que vergonha! Não posso sonhar?
Ora, porque nasci?
Deus é meu alento.
Fez-me sonhador
E me faz viver acordado.
Não posso dormir para não sonhar.
O estro divino é a minha fúria poética.

Não sou ninguém, porque não posso sonhar em ser ninguém.
Sou o pequeno Morfeu sonhador que não vive porque não sonha
E não dorme para não sonhar.

Deitado em minha cama
A insônia é meu aconchego.
Num lapso de tempo Deus veio,
Vi então que Ele sonha.
Viandei compulsoriamente no sonho d’Ele.
Vi então como é bom sonhar!
Junto com Deus sonhei.
Sonhei e vi o que tudo é,
E que o tudo que é o é factível.
Não mais me senti cansado nem fatigado.
Como é bom sonhar!
Queria não mais acordar.

Outro lapso de tempo e acordei.
Não tinha mais insônia!
Não sou mais desconchavo.
Sonhei e vi que era possível sonhar.
Sonhara a realidade.  
Mas sonhar é tão duro!
É feiura onírica,
É noite de fel.
Porque tudo que é real é dor.
Porque a verdade liberta, mas é dolorosa, é padecente.

Foi então que percebi,
Que Deus descera de novo e me perguntou:
Estás com sono? Ou estás com sono?
Respondi: Ora, não seria eu como Morfeu? Faça-me sonhar, nasci para sonhar.
Deus disse: Quem disse? Não estarias sonhando agora?
Respondi: Ao menos faça-me sonhar teus sonhos,
Pois já não agüento mais esses pesadelos.

Vi então que na realidade não sonhava,
Tinha reflexos de um futuro criado
Tinha sim desejos infames de ser e ter.
Nunca havia sonhado.

Preciso sonhar para aprender com o que sonhar.
E quando sonhar, sonharei que não tenho nada,
Porque não tenho nada,
Não tenho vida, não tenho sonhos nem vontades,
Nem virtudes, tampouco coração.

Descubro então que tenho tudo
E na terra não há mais pranto nem crime nem dor.
E as pessoas caminham nas praças e jardins
Alegres e saudáveis,
Libertas e sonhadoras.
Porque Deus sonhou primeiro,
E eu sonhei depois.

Então, acordei.
Dormi e sonhei.