segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Ensaio sobre o mau

      O problema do mau e sua influência no ser humano. Que poderíamos afirmar a respeito? Seria talvez uma extremidade, um pólo negativo essencial à afirmação da dualidade e do equilíbrio da alma? Um gênio maléfico que se apodera na medida em que lhe é dado vazão? Quanto ao homem, seria o mesmo dotado de duas personalidades distintas sujeitas ao domínio próprio, ou apenas um centro que sofra influências e alterações externas? Várias especulações emergem de tal pensamento. O mau, como objeto externo, de si para si, não apresenta virtude alguma, senão e tão-somente se lhe oferece e propõe suas maleficências na consciência do homem.
      Dentre várias linhas de pensamento e deliberações sobre a causa e o fim do mau, podemos trilhar um caminho mais coerente e que será o princípio deste ensaio. Partindo da premissa de que o mau, de si para si, é pleno e justificado em sua essência de atiçar o mal e que, de forma alguma, estaria propício a cair em tentação e praticar, por pura pusilanimidade e fraqueza, o bem. Aquilo de que é constituído não lhe permite desfalecer em ser maléfico e se render ao seu contraste. O mau não se deixa apanhar, não se resvala em si mesmo. Na sua essência, a oposição nunca incidirá como conseqüência de um erro ou descuido seu. O mau não pode ser provocado uma vez que toda instigação e experimento diabólico (= adjetivo, qualificação [para não fazer referência a satanás como princípio do mau, mas apenas uma possível objeção quanto à sua prática do mal]) provêm dele mesmo. Não obstante, ser tentado por si mesmo seria uma negação de seu caráter distintivo. Do lado oposto do plano do mesmo eixo é que encontramos o ponto que pode ser instigado: o bem, em conseqüência da incongruência humanal.
      Para simplificar, analisemos a famosa estória de Robert L. Stevenson, “O Médico e o Monstro”.
       Dr. Jekyll, homem pacífico e de natureza inclinado ao trabalho, descobre uma substância química que, se ingerida, causa um desdobramento físico e separa as duas naturezas que lutam constantemente na consciência, o bem e o mal, cada uma com sua autenticidade, cada qual em seu reino, com o intuito de fazer do homem pleno em alguma personalidade, sem uma compleição fraca e falta de solidez. O pólo maléfico faria declinar ao tipo pecaminoso, em sua melhor forma de manifestação, o diabo encarnado. A outra extremidade teria sua inclinação à pureza e à humanidade figurada no homem. Mas, em sua desventura, Dr. Jekyll trás à tona um outro ser, um monstro adormecido, um espírito do inferno, assassino e entregue a todas as perversidades. Surge então Mr. Hyde, o monstro.
       A situação criada sujeita à ventura havia lhe dominado. Sob o aspecto de Hyde, ele era completamente mal, totalmente desconstituído de toda disposição constante do espírito em praticar o bem. O mal se lhe apossava, transfigurando até mesmo sua fisionomia, a ponto de lhe tornar irreconhecível. Fugia a qualquer conseqüência porque sua aparência não parecia em nada com a do Dr. Jekyll. O mal encarnado lhe desfigurava as nuances de seu corpo, seu tamanho diminuía e causava um visível arrepio físico em quem se aproximava. Era só fugir à sua outra personalidade, à carcaça do Dr. Jekyll, bem mais robusta, mais desenvolvida, cuja fisionomia resplandecia o bem, e ele estava livre de sua culpa. Após beber novamente a fórmula para voltar a ser Jekyll, Hyde deixava de existir. Desaparecia, e com ele todos os seus delitos. Restava apenas o doutor, um homem cuja reputação o eximia de qualquer suspeita.
      Enquanto Hyde era constituído apenas do mau, Jekyll continuava a ser o mesmo composto incongruente. O bem e o mal coabitando num único corpo, destituído da inteireza em qualquer personalidade. A fórmula, portanto, talvez com alguma impureza, somente resultaria a tender ao pior. Em sua constante luta interior, a quezília entre os dois pólos distintos, a fuga de si mesmo quando da ingestão da droga, fazia esvair cada vez mais o lado humano, outrora preponderante, agora nostálgico, submetido à avidez bestial que emergia e grassava para o domínio. A fórmula não lhe regressava mais ao estado natural, tamanha a influência maligna exercida sobre o ilustre doutor. O mau o possuíra de tal maneira que, mesmo sem o influxo da droga, Hyde vinha à tona, preponderava sobre Jekyll. No início, a ilusão de estar sob sua vigilância o gozo do poder de se refugiar em outro ser após vários infortúnios acometidos. Com o tempo, a vicissitude da situação lhe roubava o domínio. Daí o perigo da sucumbência ao mal, que progride na medida em que é provocado.
      Eis, então, que não ousaria apresentar sequer uma alusão à solução quanto ao problema do mau, nem tampouco desmistificá-lo, tendo em vista a profundidade religiosa e moral que lhe devido. Outrossim, não me houve por averiguar se o conceito do mau seria, universalmente, como sendo, no seu todo, de índole malfazeja. Destarte, seria contundente e presunçoso responder as suas várias questões. Por conseguinte, apenas proponho um ensaio, “a fortiori”, conjeturas e reflexões acerca do tema, suas aspirações e seus perigos.

O Rio


É de noite que o rio é triste,
Quando os mistérios das sombras
Se avolumam
E o murmúrio das pobres águas
Na escuridão
Lembra soluços em surdina
Por uma dor que não tem consolo.

À noite o rio é assustador
O desespero
Da torrente que passa
É o de todos os afogados,
Que parecem rolar
Para um abismo sem fim

Em um dia de escuro
Em que a noite
Não quisera ir embora,
Sentei-me à beira do rio
E olhando o reflexo
De um céu cor de chumbo
Tive medo de passar
Pela vida tal qual
Suas águas,
Sem as pessoas
Ao menos darem por isso.
                                                                  
                                                                   Poema escrito por Armando José da Silva, mentor e amigo.