O problema do mau e sua influência no ser humano. Que poderíamos afirmar a respeito? Seria talvez uma extremidade, um pólo negativo essencial à afirmação da dualidade e do equilíbrio da alma? Um gênio maléfico que se apodera na medida em que lhe é dado vazão? Quanto ao homem, seria o mesmo dotado de duas personalidades distintas sujeitas ao domínio próprio, ou apenas um centro que sofra influências e alterações externas? Várias especulações emergem de tal pensamento. O mau, como objeto externo, de si para si, não apresenta virtude alguma, senão e tão-somente se lhe oferece e propõe suas maleficências na consciência do homem.
Dentre várias linhas de pensamento e deliberações sobre a causa e o fim do mau, podemos trilhar um caminho mais coerente e que será o princípio deste ensaio. Partindo da premissa de que o mau, de si para si, é pleno e justificado em sua essência de atiçar o mal e que, de forma alguma, estaria propício a cair em tentação e praticar, por pura pusilanimidade e fraqueza, o bem. Aquilo de que é constituído não lhe permite desfalecer em ser maléfico e se render ao seu contraste. O mau não se deixa apanhar, não se resvala em si mesmo. Na sua essência, a oposição nunca incidirá como conseqüência de um erro ou descuido seu. O mau não pode ser provocado uma vez que toda instigação e experimento diabólico (= adjetivo, qualificação [para não fazer referência a satanás como princípio do mau, mas apenas uma possível objeção quanto à sua prática do mal]) provêm dele mesmo. Não obstante, ser tentado por si mesmo seria uma negação de seu caráter distintivo. Do lado oposto do plano do mesmo eixo é que encontramos o ponto que pode ser instigado: o bem, em conseqüência da incongruência humanal.
Para simplificar, analisemos a famosa estória de Robert L. Stevenson, “O Médico e o Monstro”.
Dr. Jekyll, homem pacífico e de natureza inclinado ao trabalho, descobre uma substância química que, se ingerida, causa um desdobramento físico e separa as duas naturezas que lutam constantemente na consciência, o bem e o mal, cada uma com sua autenticidade, cada qual em seu reino, com o intuito de fazer do homem pleno em alguma personalidade, sem uma compleição fraca e falta de solidez. O pólo maléfico faria declinar ao tipo pecaminoso, em sua melhor forma de manifestação, o diabo encarnado. A outra extremidade teria sua inclinação à pureza e à humanidade figurada no homem. Mas, em sua desventura, Dr. Jekyll trás à tona um outro ser, um monstro adormecido, um espírito do inferno, assassino e entregue a todas as perversidades. Surge então Mr. Hyde, o monstro.
A situação criada sujeita à ventura havia lhe dominado. Sob o aspecto de Hyde, ele era completamente mal, totalmente desconstituído de toda disposição constante do espírito em praticar o bem. O mal se lhe apossava, transfigurando até mesmo sua fisionomia, a ponto de lhe tornar irreconhecível. Fugia a qualquer conseqüência porque sua aparência não parecia em nada com a do Dr. Jekyll. O mal encarnado lhe desfigurava as nuances de seu corpo, seu tamanho diminuía e causava um visível arrepio físico em quem se aproximava. Era só fugir à sua outra personalidade, à carcaça do Dr. Jekyll, bem mais robusta, mais desenvolvida, cuja fisionomia resplandecia o bem, e ele estava livre de sua culpa. Após beber novamente a fórmula para voltar a ser Jekyll, Hyde deixava de existir. Desaparecia, e com ele todos os seus delitos. Restava apenas o doutor, um homem cuja reputação o eximia de qualquer suspeita.
Enquanto Hyde era constituído apenas do mau, Jekyll continuava a ser o mesmo composto incongruente. O bem e o mal coabitando num único corpo, destituído da inteireza em qualquer personalidade. A fórmula, portanto, talvez com alguma impureza, somente resultaria a tender ao pior. Em sua constante luta interior, a quezília entre os dois pólos distintos, a fuga de si mesmo quando da ingestão da droga, fazia esvair cada vez mais o lado humano, outrora preponderante, agora nostálgico, submetido à avidez bestial que emergia e grassava para o domínio. A fórmula não lhe regressava mais ao estado natural, tamanha a influência maligna exercida sobre o ilustre doutor. O mau o possuíra de tal maneira que, mesmo sem o influxo da droga, Hyde vinha à tona, preponderava sobre Jekyll. No início, a ilusão de estar sob sua vigilância o gozo do poder de se refugiar em outro ser após vários infortúnios acometidos. Com o tempo, a vicissitude da situação lhe roubava o domínio. Daí o perigo da sucumbência ao mal, que progride na medida em que é provocado.
Eis, então, que não ousaria apresentar sequer uma alusão à solução quanto ao problema do mau, nem tampouco desmistificá-lo, tendo em vista a profundidade religiosa e moral que lhe devido. Outrossim, não me houve por averiguar se o conceito do mau seria, universalmente, como sendo, no seu todo, de índole malfazeja. Destarte, seria contundente e presunçoso responder as suas várias questões. Por conseguinte, apenas proponho um ensaio, “a fortiori”, conjeturas e reflexões acerca do tema, suas aspirações e seus perigos.