Por que a Loucura? Sim, à primeira vista, um marnel. Mas permitam-me, de um modo jovial e humorado, fazer a defesa desta que, segundo Erasmo de Rotterdam, é capaz de alegrar os deuses e os homens. E é embasado nesta obra que dou início a este acto de ensaiar. É movido pela Loucura que, "condition sine qua non", o escritor tem a liberdade de gracejar impunemente a respeito das condições da vida e do cosmos. É através dela que poderei deliberar, sem medo, sobre quaisquer assuntos, dentre literatura, filosofia, política, poesia e outras artes. Em o Elogio da Loucura, Erasmo, com a roupagem da Moria (Loucura), reflete: "Criticar os costumes dos homens sem atacar ninguém pelo nome, trata-se realmente de magoar? Pelo contrário, não seria instruir e aconselhar?"
Daí o porquê da Moria, que nada mais é que uma "doce ilusão", traduzida em amor, que me desprende e faz de mim um cremnóbata e um peregrino nos vários tipos de conhecimento e de expressão artística.
Ainda na Loucura, estabeleçamos o seguinte: Primeiro se faz necessário o nada para se preencher com o tudo. Antes, o obscuro para que possa ser esclarecido. Se, uma vez iluminado, não chega-se então à uma conclusão? Uma vez determinado a resolução não se encerra assim uma discussão? Ora, segundo Platão, a Filosofia começou com a perplexidade, com a atitude de assombro do homem perante a natureza. Miguel Reale professa que o homem passou a filosofar no momento em que se viu cercado pelo problema e pelo mistério. Daí o nascimento da filosofia. Ora, se de uma sombra de questionamentos nasceu o mais alto grau da paixão pela verdade, não iria eu propor, ainda na Moria, que nos questionemos e investiguemos os mais diversos assuntos? Não seriam as perguntas os passos para se chegar a qualquer lugar que seja, e assim descobrir outros lugares para se chegar e caminhar novamente? Filosofar é como caminhar em direção à uma bela montanha, alta e vigorosa, e, chegando ao topo, avistar de lá outras montanhas tão ou mais belas que essa e continuar a caminhada.
Sim camaradas, o que é obscuro não tem fim. Ou, como diria Rubem Alves: "Uma palavra obscura é muito melhor que duas palavras claras, pois esta põe fim à conversa." Desta forma, com a valorosidade poética, suplantarei toda plenitude de luminosidade. Deixarei apenas resquícios da claridade entrar pela janela semi-aberta. Isso gera curiosidade. Não haverá fim a não ser o fim próprio da coisa em questão. Somente assim ficará a disposição à plenitude enunciada pela simples paixão de escrever. Quem escreve, não o faz para si mesmo, mas para o próximo. Desta forma, o fim dessa postagem inspirado pela Loucura se destina a um não-fim, pois não há claridade em plenitude que se excepcione acima da Loucura e, se bem vos lembro, a palavra foi dada a Ela, enquanto mulher, enquanto Loucura.